26/04/2015

A Harpa de Nero


Como todos se lembram, o Sporting Clube de Portugal bateu no fundo em 2013, no pior momento da sua existência. A situação era mais que crítica: o Clube ameaçava assimilar a famigerada Lei de Murphy na sua plenitude, caminhava a passos largos para a pior classificação de sempre, tinha salários em atraso, dívidas a (vários) treinadores - dos quais um não se coibiu de secar o Sporting CP ao Sol para que se visse o calote saldado, pondo em causa a idoneidade do Clube, tal era a falta que lhe fazia o dinheiro para um bom Jack Daniels. Tínhamos jogadores que acabavam de sair ao estilo de "batata quente" e a dar graças por terem "renascido", fomos desrespeitados na Comunicação Social de todas as formas e feitios, sendo que nessa mesma época um Clube teve a ousadia de colocar em cheque a grandeza do nosso Clube - e que rapidamente foi aproveitada pelos corvos que já consideravam o Sporting Clube de Portugal um clube a soro, que não iria escapar ao fio... da navalha.

Financeiramente, estávamos a "pão e água": tivemos de vender os passes dos jogadores para poder cumprir com os mesmos e, quando já não havia nada para vender, chegou-se até a considerar vender a tão discutida e criticada academia... aos chineses.

O orgulho leonino atingiu a miséria moral, a principal claque chegou mesmo a fazer uma greve chanfrada, atingimos mínimos históricos de assistência - quando já eram oferecidos bilhetes nas escolas - e até o "Paços Fonseca" vinha à nossa casa ganhar afirmar que "o Sporting causou-nos algumas dificuldades". O "ingrato" Liedson foi jogar para o FC Porto, e proferiam frases que ainda batiam mais num leão ferido, depois o Izmailov  iria juntar-se a ele no Clube a quem prestávamos uma vassalagem mais ou menos pública, sendo que esses - dançando e rindo sobre a desgraça do Sporting Clube de Portugal - ainda garantiram que os jogadores teriam escrito nas camisolas "Izmaylov" e "Lyedson" (uma provocação que ainda hoje não entendi , pois faltou o "Moutynho"). Isto sem qualquer piedade, mesmo que nós os recebessemos nos clássicos oferecendo croquetes e demais ementa especializada à Zé dos Tachos e permitindo mesmo na nossa tribuna o líder dos Super Dragões para ver o derby de Lisboa - que era, segundo os responsáveis, "o jogo da época que poderia salvar o resto" (mas, que resto?). O capitão de equipa também já merecia elogios públicos de Pinto da Costa (déjà vu), e logo os corvos potenciaram o que seria mais uma machadada no Sporting CP. Chegámos mesmo a ouvir o "inconveniente" Manuel Serrão a confessar o seu desejo pelo fim do Sporting Clube de Portugal.

Todos sabem que o Clube jamais terá fim, mas o Sporting CP, tal como o conhecemos, ficou em dúvida. A Salgueirização era a profecia até dos novos do Restelo.

Chegou, em Março de 2013, um Presidente que ganhou com 54% do votos, penso eu (embora no ano passado toda a gente que conhecíamos tivesse votado nele), uma estrutura que fez auto-gestão até ao fim da época e que não conseguiu evitar a pior marca na nossa classificação - e que destruiria uma das "nossas" provocações, a famosa tarja "nunca ficámos em sexto". Assim que Bruno de Carvalho iniciou a sua época com o seu treinador e a sua estrutura, as coisas foram correndo bem, éramos um Clube sem língua, tínhamos um treinador altamente resultadista que, com um plantel limitado em quantidade e qualidade, conseguiu levar-nos à nossa 6.ª presença na Fase de Grupos da UEFA Champions League. O mérito mais vistoso terá sido porventura do treinador, que gozava de uma excelente imprensa tal como, aliás, todos os treinadores da Era-Bruno de Carvalho irão gozar - suspeito, mas houve algo de especial que nos deu forças para conseguir 6 reviravoltas ou marcar 5 jogos nos derradeiros minutos: a união dos Sportinguistas, que encheram estádios em todo o País, evitavam o assobio e a crítica fácil e, mesmo não conseguindo o tão ambicionado título, batemos o Campeão Nacional nas assistências fora de casa. Mesmo sem pedir estádios "alugados".

Uma união em nome do Sporting Clube de Portugal, em nome também da sobrevivência, uma união em nome da nossa História, sendo que essa união não se ficou pelos estádios deste pequeno País. Numa revolta contra um problema crónico dos últimos 50 anos (com 5 ou 6 intermitências), os Sportinguistas disseram BASTA! aos árbitros e à sua falta de respeito pelo nosso Clube, mostrando a nossa força pelo caminho da união. Pese embora não tenhamos colinho, hoje ninguém poderá comparar as arbitragens que temos com as que tínhamos antes, de forma global. Este é um dos maiores casos de sucesso que a nossa união conseguiu.

Esta época a união quebrou-se, e todas as partes contribuíram: Presidente, Treinador, Sócios/Adeptos, o Sporting Clube de Portugal voltou a mostrar a sua divisão, esquecendo-se da sua real situação apenas pelo deslumbramento da época passada e não percebendo que o motor dessa mesma época foi a união. Os Sportinguistas perderam o "sentido de Estado", alguns fazem opções entre Presidente e o Treinador (entrando numa politização escusada e contraproducente) e, até quem nada tem a ver com isso é metido nestas visões dentro de uma das trincheiras: "critica-se Marco Silva por Brunismo", e "critica-se Bruno de Carvalho porque se é apoiante de Marco Silva". Mesmo quando Presidente e Treinador dão mostras de aproximação, alguns preferem ver a guerra fria. O sentido de Estado (de que um dia falou o melhor comentador do Sporting CP na TV) foi ignorado por todos, inclusive pelo Presidente, que mostrou algum deslumbramento ao não perceber que a divisão era profunda e, com um ano menos feliz ao nível da comunicação, também é um dos maiores responsáveis pela situação. Na minha opinião, sendo o seu mandato crucial, os Sportinguistas terão de saber corrigir o Presidente - se necessário fôr. Não pode ser por ele falhar, nomeadamente quanto à união de causa, que vamos deitar tudo abaixo. Teremos de ser mais inteligentes que ele, porque está em causa o nosso Clube.

No meio de tudo isto, de todas estas questões paralelas e lutas intestinas, fica o Sporting Clube de Portugal, que ainda terá de pagar retroactivos por tudo o que fez no passado mais recente, sendo que um dos mais evidentes agora será a quebra de prestígio. Visto que o mercado saturou, ter-se-á de ir pedir apoios lá fora com 2 Campeonatos nos últimos 30 anos, uma Final Europeia perdida em casa e "meras" 6 presenças na UEFA Champions League. Lá fora não vai contar se temos mais adeptos nos estádios que FC Porto, por exemplo; vai contar o prestígio, delapidado pelos corvos, com a nossa ajuda, os mesmos que vos fazem ouvir imensas vezes "Benfica e Porto muito acima dos outros" (esta repetição comunicativa é manipulação).

Este ano tivemos uma visita a Angola de 2 dos maiores Clubes em Portugal, o FC Porto e Sporting CP, o primeiro teve até direito a honras de Estado e destaque no jornal de Angola, já nós fomos ignorados e recebidos por um General Sportinguista, quando fomos mesmo inaugurar uma Academia naquele país. Depois a comunicação sempre manipulativa brindou-nos com uma reportagem que jamais passaria se tivéssemos a força que pensamos ter: onde estão várias crianças angolanas e no "ponham a mão no ar" não surge nenhum Sportinguista. Parecendo pouco importante, estamos a falar do PALOP mais investidor em Portugal e, hoje, com uma influência dominante na maior parte dos sectores estratégicos na economia nacional. O nosso Presidente, que nestes dias esteve em São Tomé, não teve direito a ser recebido pelo Primeiro-Ministro tal como o foi Luís Filipe Vieira, Presidente do Clube rival. Como disse acima, o mercado português saturou; está na hora de ir procurar apoios e o que se prevê é que a distância em receitas fixas aumente ainda mais para os nossos rivais, porque recebemos pelo nosso prestígio, e chegou a hora de pagar a factura do que (não) fizemos por demasiados anos.

Há muitos mais problemas à volta do Sporting Clube de Portugal, mas vou-me ficar por aqui, e perguntar aos Sportinguistas: querem continuar a brincar inconscientemente com a Harpa de Nero enquanto o nosso Clube está numa situação de sobrevivência enquanto Clube "grande"?

Sabem quem disse que parecia todos os Sportinguistas tinham votado em Bruno de Carvalho? Rui Gomes Da Silva, adepto do Clube rival. Transmitíamos uma ideia de união tal que nos foi possível superar muitas adversidades, e a questão é que em comunicação ("a maior arma do Século XXI", segundo Bruno de Carvalho) "não é preciso ser, basta parecer". Obviamente, nem todos votaram nele, nem todos gostam de Bruno de Carvalho, mas aquele era um momento-chave para o Sporting CP, que todos entenderam que era necessário colocar de lado as diferenças, pelos superiores interesses do Sporting CP, e evitar mostrar o discurso fracturante aos nossos adversários, retirando-lhes uma das maiores armas que têm contra nós: nós próprios.

Este texto é para todos. Estejam na bancada Sul, central, Norte, no banco, num camarote, em casa, no café, num restaurante, sentados ou acamados, ou em qualquer cidade do mundo, a única visão que jamais poderemos perder é que o Sporting Clube de Portugal tem um longo caminho para percorrer e teremos de ser unidos e trabalhadores. E deixar de nos pavonearmos quando existe uma ameaça séria ao nosso Clube. Temos de ser unidos porque não há sucesso onde não há união.

A operação  para diminuir o nome do Sporting CP está montada, mais dissimulada talvez, mas apenas pela época passada. Está-se já a afiar as lâminas para, se em caso de derrota na Final da Taça de Portugal com o Clube que desafiou a nossa grandeza, o Sporting Clube de Portugal volte a ser questionado em relação à sua dimensão e voltemos a ouvir os corvos a colocar reticências quando se referirem ao nosso Clube como um grande de Portugal.
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2 comentários:

  1. Anónimo7/5/15 15:07

    Texto para ler e reler.

    Muito bom caro MM.

    Deixa a pensar em muita coisa realmente.

    AC1906

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  2. Excelente texto, concordo plenamente.

    Fiquei particularmente impressionado com a história sobre as crianças angolanas.

    SL

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