Próximo Jogo

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21/04/2015

O dilema de Marco e o dogma de William

Certamente todos se lembrarão de Marco Silva no GD Estoril-Praia: técnico altamente promissor que apresentava uma proposta de jogo sólida e agradável que dominava todos os momentos de jogo, que era sempre coerente e que tanto podia ir ao Dragão ou a Alvalade ganhar como perder em casa com um Vitória de Guimarães de 2.ª volta, mas a ideia estava lá.

No Verão, após muita especulação sobre se iria para o Dragão, para a Luz ou Alvalade, o ex-lateral-direito acabou por assinar pelo Sporting Clube de Portugal. Chegava assim a um "grande" que exigia tanto como os outros mas dava menos condições, mas não teve medo e assumiu que o objectivo seria o título nacional. Na sua apresentação, Marco Silva disse: "O Sporting ao contratar-me comprou também uma ideia de jogo".

O Sporting CP teve um início de Campeonato bastante turbulento, com a saída de um jogador importante como Marcos Rojo para a entrada do inexperiente Naby Sarr para o centro da defesa, o Sporting CP jogava bem, jogava como uma equipa que joga para dar acima de 3 mas só conseguia marcar 1, e depois ainda sofria devido a erros defensivos constantes - que eram apontados como individuais pelos adeptos mas cedo se percebeu que os comportamentos colectivos da equipa (a nível defensivo) deixavam muito a desejar. Mais até do que a qualidade dos executantes.

A melhor exibição da carreira de Rui Patrício foi no jogo contra o Chelsea FC - onde ainda assim conseguiu sofrer um golo indefensável - e também foi algo vergonhoso para o treinador do Sporting CP, visto que o Chelsea FC explorou a profundidade do Sporting CP como se estivesse a jogar contra infantis, conseguindo obter situações de 1x1 pelo menos umas 5 vezes. Apesar de tudo, o Sporting CP era uma equipa que praticava um bom futebol, dizia a crítica, mesmo não ganhando e consentindo empates.

Crítica essa que chegava da pior maneira ao melhor jogador do Campeonato 2013/2014 por estar em baixo de forma, e ter o pensamento fora de Alvalade. Alguma razão tinham, porque caso William Carvalho tivesse saído para o Manchester United FC jamais teria coragem para se apresentar na forma física que tinha no início da época. Mas a questão ía para além disso; William Carvalho jogava dentro da "ideia de jogo" do treinador, que consistia num duplo-pivot, lado a lado com Adrien Silva, o que exigia muito mais do médio a nível físico e no seu maior entrave para ser um jogador de topo: o posicionamento. Fora do seu habitat, William Carvalho tanto fazia um bom jogo como era substituído ao intervalo, e via o país futebolístico que o aclamou (cedo demais) como um dos melhores na sua posição a duvidar do seu valor.

O Sporting Clube de Portugal? Bem o Sporting CP tanto ia ganhar por 3 ao Dragão como ia perder a Guimarães por 3 (...) e, como isto é futebol e o mais importante são os resultados, resultados instáveis implicam também instabilidade no Clube, entre sair e não sair, entre tachos e padrinhos, Marco Silva permaneceu em Alvalade e respondeu com uma série de quase uma dezena vitórias consecutivas. Para isto acontecer houve várias mudanças na equipa: apareceu o tão desejado por nós Tobias Figueiredo, William Carvalho subiu de forma e o Sporting CP ficou uma equipa mais sólida defensivamente e ia ganhando os seus jogos com maior ou menor dificuldade. E, tal como disse acima, o futebol é feito de resultados, e os adeptos querem é vitórias mas, já neste período, o Sporting CP abandonou a sua ideia de jogo, tornando-se uma equipa paupérrima a nível de jogo interior - como mostrou contra a Assoc. Académica de Coimbra em casa -, mas ganhava e ninguém notava...

Relembro que o melhor em campo nesse jogo foi William Carvalho, que começava aqui a escalada para recuperar o respeito perdido. William não começou a jogar bem por magia: o duplo-pivot foi desfeito para que pudesse voltar ao seu habitat e à sua zona de conforto (se quiser ser grande terá saber jogar fora dela) e, a partir daí víamos em todos os jogos que aquele futebol não era o que tinha seduzido os sportinguistas pelo Marco Silva, ao ponto de desafiarem o Presidente quando este o "quis" despedir. Simplificando, o Sporting CP deixou de variar o seu jogo para apenas se limitar a jogar pelas alas com zero de futebol interior (tal e qual como com Leonardo Jardim, na segunda volta da época transacta). Assim ficou o futebol (independentemente dos resultados) do Sporting CP, a cair coincidentemente com a subida de forma de William Carvalho.

No jogo contra o FC Paços de Ferreira, vimos o regresso do Sporting CP ao bom futebol, fez mais um jogo para dar mais de 3 e empatou e, como estou a falar de futebol e não de resultados, notámos que o duplo-pivot voltou com o mal-amado André Martins ao lado de William Carvalho, que foi o pior médio do Sporting CP em campo, coincidentemente.

Onde quero chegar com isto? Não estou a desvalorizar William Carvalho - que é um dos meus jogadores preferidos e do qual sou mesmo um fã assumido, não coloquei nunca em causa o seu valor nem quando esteve mal. Aposto que nem eu nem Marco Silva, tal como certamente o Guardiola nunca duvidou do valor de Ibrahimovic. Podemos sempre dizer - e eu disse - que um treinador tem de se adaptar aos jogadores que tem mas, provavelmente, Marco Silva com 4 anos de carreira ainda não possui a sua capacidade para sair da sua zona de conforto onde, por acaso, o maior activo da história do Sporting CP não rende. A verdade é que o meio-campo do Sporting CP não tem capacidade/características para jogar como Marco Silva pretende...

Nota de Autor: texto escrito após o jogo ante o FC Paços de Ferreira, inicialmente escrito para a rúbrica A Voz do Leitor.

Nota SVPN: O agora colega m1950 foi convidado a juntar-se à equipa do blogue recentemente, pelo que este é o seu primeiro artigo. Da parte do SVPN, as boas-vindas a este espaço de discussão!
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14 comentários:

  1. Bem-vindo m1950.

    Boa postada. Com mais calma direi da minha justiça sobre o seu texto.

    SL

    AC1906

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  2. Bom texto. O Marco já devia ter percebido que não está no Estoril, tal como no inicio da época devia ter percebido que o Paulo Oliveira devia ter jogado a titular. Se tinha dúvidas era só relembrar o campeonato anterior. Digo eu.

    Já disse isto, sem Taça por mim não fica.

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  3. Bom post, não concordo é com a questão do William não saber jogar fora da sua posição de conforto. E para isso basta ver os jogos em que precisou de jogar a central por expulsões e mais ainda o último jogo com o Boavista em que jogando a central saiu muito dessa posição apoiando o jogo dos extremos junto à área adversária, muito à frente da posição de trinco ou médio defensivo. Mas o que me espantou mais é que fez isso mesmo quando já ganhávamos por 2x1.

    Por isso afirmar que ele não joga bem fora da sua área de conforto é um bocadinho redutor... Tem falhas? tem, mas pelo demonstrado no Domingo e noutros jogos ele faz mais do que afirmas.

    SL

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  4. António Gomes , compreendo o que diz e respeito , e digo-lhe que o William na Bélgica até a 8 jogou.

    A questão do texto incide-se mais no jogo sem bola , o que vemos na transição defensiva do SCP é falta de posicionamento e até velocidade , como por exemplo o jogo com o Vitória de Setúbal , onde levamos com um contra ataque no ultimo minuto e não há ninguém para fazer falta.

    Já agora obrigado a todos pelas boas vindas.

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  5. Ora, novamente, bem-vindo ao SVPN, caro m1950!

    Estou genericamente de acordo com o teu artigo, naquilo que são as ideias-base do mesmo. No entanto, tenho algumas divergências contigo quanto a William Carvalho, que passam essencialmente pela vertente táctica.

    Considero que (além do Campeonato do Mundo Brasil'14) a baixa de forma do trinco se deve fundamentalmente à inadaptação do mesmo a uma dinâmica de jogo (mais ousada, em comparação com o modelo de Leonardo Jardim) que não o protegia tanto. Usando como termo de comparação a época transacta, e apesar do menosprezo que grande parte dos adeptos lhe nutrem, André Martins funcionava como uma espécie de "coração" do meio-campo, acudindo a tudo quanto fosse preciso. Já esta época, Adrien Silva - privado dessa "bengala", tem falhado em conseguir o mesmo, seja nas compensações ou nos apoios, e João Mário está regra geral mais preocupado com a vertente ofensiva (não querendo com isto dizer que se demite de obrigações defensivas).

    Posteriormente, parece-me que Marco Silva foi obrigando os jogadores a prestar um maior apoio na transição defensiva (embora não se constatem grandes resultados práticos, além do maior "conforto" conferido a William Carvalho).

    Além do susodito, considero também, como tu, que a ideia de jogo até sensivelmente metade da época foi sendo gradualmente destruída face ao aproveitamento insuficiente - o que, desde já, considero um erro, embora o compreenda de certa forma. E isso também terá ajudado à subida de forma de William Carvalho, muito mais propenso a este tipo de jogo que num futebol mais (...) chamemos-lhe "rendilhado".

    A minha desilusão com o treinador assenta essencialmente neste suicídio ideológico de Marco Silva. Marco Silva é mais que o que tem mostrado!

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  6. Bernd Schneider22/4/15 16:55

    Como é que o William tem dificuldades no jogo interior se é dos jogadores que mais procura jogar pelo meio?

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  7. Bernd Schneider,

    Não sei se o seu comentário me era dirigido a mim ou ao autor do texto. De qualquer forma, se o destinatário era eu, passo a responder:

    Compreendeu mal o que referi sobre William Carvalho. É dos jogadores que mais jogo interior toma e cria. Mas também é um jogador muito mais propenso a lançar os colegas em transição, através de passes longos/ruptura, o que o favorece na actual dinâmica de jogo.

    Na primeira metade da época, a ideia de Marco Silva passava por um futebol mais apoiado, de passe curto, apoios interiores, triangulações e o que mais lhes quiser chamar e, aí, considero que William Carvalho se sentiria um pouco mais "peixe fora d'água", pois era-lhe retirada uma das características que melhor empresta ao jogo.

    Espero tê-lo elucidado.

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  8. Bernd Schneider22/4/15 20:10

    Mauro Silva,

    o comentário não era direccionado especificamente a si, mas mesmo assim continuo a discordar deste último post, por isso vou excrever mais umas palavras...

    O William não é um jogador de transições e mesmo a sua capacidade de lançar os colegas foi questionada pelo LJ em Arouca (lembram-se? saiu William e ficou Adrien porque era "lançador").

    Este ano, o William realmente melhorou a sua capacidade de lançar os colegas e até o faz com os dois pés, algo que antes não tinha. Mas continua a ser um jogador de posse, de apoios, que roda bem a bola e que imprime muita segurança na sua zona (com bola e sem bola). Ainda o ano passado o William faz um golo olímpico (não me lembro contra quem, mas acho que foi contra o Paços) num lance em que penetra pelo interior através de tabelas, num lance que não vejo mais nenhum médio deste Sporting a conseguir fazer (talvez Gauld, mas esse não tem jogado).

    O problema do William foi que no espaço de 12 meses passou de quase dispensado do Sporting a estrela do futebol mundial. Foi ao Mundial, deslumbrou-se e chegou gordo, tendo perdido 3/4 meses à custa da brincadeira.

    Depois disso, WC foi o jogador que é e que pode ser e por acaso,de modo que eu não correlaciono, a equipa deixou de jogar futebol e tem andado a vaguear 90 minutos atrás de 90 minutos...

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  9. Bernd Schneider,

    Se atentar bem, a sua e a minha opiniões são, ambas, perspectivas diferentes de dizer o mesmo. Salvo o seu último parágrafo a que, já agora, acrescento: a correlação não é directa; não há uma causa-efeito unicamente relacionada com um só jogador (William ou qualquer outro). O nexo tem que ser sempre - como deve - colectivo.

    Creio ter percebido que a menção a William Carvalho terá sido uma forma de, como exemplo, demonstrar a relação entre o individual e o colectivo, justificando que nem sempre uma é sequência da outra, como muitos julgam.

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  10. Exactamente isto. Agora a minha questão é:se ficar que marco teremos? E que equipa terá? (Início de época com sarr e mauricio)

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  11. Bern Schneider

    Basicamente , é mais fácil o Sporting recuperar a bola perdendo a nas alas do que pelo meio , quando a perde no meio , os jogadores do meio campo , essencialmente William não tem capacidade de recuperação quando estamos subidos , falta-lhe alguma posicionamento e até mesmo velocidade , acho que é a melhor forma de resumir o post , mas entendo que não concorde com a ideia do post.

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  12. Bernd Schneider23/4/15 18:39

    m1950

    não me parece que os problemas do William sejam o posicionamento - a falta de velocidade sim, tem influência, aí concordo.

    Quanto ao modelo do duplo-pivot: William não é propriamente quem fica mais exposto pela falta de velocidade naquele meio-campo, que o Adrien ainda tem mais dificuldades nesse aspecto. E aí sim, a equipa fica relativamente exposta, pela relativa lentidão de ambos os jogadores daquele duplo-pivot.

    Não me parece é que o duplo-pivot vs pivot único force a equipa a jogar mais pelo meio ou mais pelas alas. Afinal, já Jardim atacava pelas alas e William jogava sozinho e não concordo que o regresso ao futebol pelas alas, com MS, se tenha feito novamente no mesmo sistema: continuo a ver o mesmo duplo-pivot, simplesmente há maior volume pelas alas que pelo meio, sem grandes alterações na organização táctica da equipa.

    Muito sinceramente, acho que o William que vimos a definhar em campo, até dezembro, estava gordo. Fosse qual fosse o sistema, estava gordo, fora de forma, sem reacção, sem capacidade de rodar como ele faz tão bem, só tecnicamente era o mesmo jogador, mas mesmo aí sentia-se falta de agilidade. A partir de Janeiro, volta à forma e volta o William que conhecemos.

    O William é um dos melhores jogadores do Sporting, de caras. Não é propriamente um Capel, que vive às custas do colectivo, que parece que suga vida à equipa para poder brilhar ele no seu cantinho. o William joga e faz jogar, sempre sem medo, em qualquer campo, em qualquer zona do campo. Com jogadores assim a subir de rendimento, a equipa só tem que subir também de rendimento. Se não sobe, a culpa não pode ser dele, tem que ser do treinador.

    Nota que não sou nenhum ceguinho adorador do William, que "aquilo" foi penoso de ver até Dezembro. E até relaciono alguns resultados menos positivos com incapacidade do William nesses jogos. Mas depois de Dezembro, esse argumento parece-me muito complicado de demonstrar...

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  13. Isto Realmente ter bons jogadores atrapalha bastante o trabalho de um treinador, e as suas concepções de jogo, caso o SCP não tivesse WC seria tudo mais fácil, era Adrien e Rossel, portanto um regalo para os olhos...

    Agora que o WC vai embora (segundo dizem) o Marco Silva deve estar todo contente, saiu-lhe um problema do campo.

    Mais seriamente, acredito que o William era capaz de integrar perfeitamente um 4231 ou um 442 sem pivot defensivo, agora isso requer trabalho individual e colectivo para adquirir/aprender processos.

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  14. "agora isso requer trabalho individual e colectivo para adquirir/aprender processos."

    Falei do Ibra acima por exemplo. Podia vir aqui falar do Cardozo , ou mesmo do Aimar na sua última fase no Benfica , ou mesmo Lucho Gonzalez.

    Em relação ao sublinhado , bem , certamente isso foi tentado , mas o Sporting é um clube onde não há tempo , vimos muitas falhas e ele acabou por abandonar a sua ideia de jogo.

    Não jogar William não quer dizer que tenham de jogar esses , mostra simplesmente que o plantel é insuficiente para o que o treinador pretende.

    Quero ver uma nova oportunidade com o Marco a pelo menos ter direito a perfilar os jogadores que pretende para o jogo que pretende.

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