Próximo Jogo

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19/10/2015

Remember The Lions - André Cruz

 Tinha pouco mais de 10 anos quando, numa data perto do Natal, o meu Tio, numa das várias conversas familiares sobre o assunto mais importante que nos rodeia, me avisou que vinha aí- do AC Milan -  um grande central brasileiro “que defende bem e  que vai marcar golos de livre, por cima da barreira, algo que nos faz falta”. Ainda que me tivesse explicado que já estava em fim de carreira, não conseguiu evitar o meu entusiasmo por saber que estava chegar do AC Milan um jogador para o meu clube, o Sporting Clube de Portugal que, na altura, ainda não tinha sido campeão – sim, se eu não tinha visto ser campeão, então para mim não tinha sido.

 A sua chegada foi logo marcada pela escolha do número 50 (moda que começou naqueles anos e que, pelo exotismo, fazia a delícia de qualquer miúdo). No entanto, foi o seu futebol e a sua elegância – dentro e fora do relvado – que me marcou. Lembro-me que na escola passei a jogar a central – ou a tentar, já que sempre fora avançado -, dizia ao meu colega de defesa que tinha de ter calma, de trocar a bola na defesa tal como o André Cruz e o Beto faziam, e passei a marcar os livres. Enquanto eu jogava ao roda bota fora na escola, o Sporting CP de André Cruz, Schmeichel, Acosta e…Duscher (dava outro texto…!) caminhava para o título e ia receber o FC Porto em Alvalade: vinha aí o pentacampeão, com jogadores como o Jardel e com seres humanos como o Secretário.

 Em minha casa, tal como ainda hoje se faz, preparou-se o clima de jogo grande: coca-cola, pizza, família reunida (Mãe incluída, que nestes jogos vai ficando para ver as figuras de quem gosta). E o jogo começa…A certa altura há uma falta à entrada da área. Paro aqui a narrativa para que o leitor perceba que o momento que vou descrever mexe com sentimentos sensíveis, e que, na minha cabeça, tudo se passou como vou contar, pelo que não vale a pena dizerem o contrário. Falta à entrada da área descaída para o lado esquerdo, os jogadores do FC Porto começam a colocar a bola longe da área porque o árbitro permite, e os jogadores do Sporting CP, aproveitando tal facto, colocam a bola do lado oposto da falta, do lado direito, ao jeito do seu número 50. GOLO…e a esperança de passar para a frente do campeonato.

Nesse ano, Sporting CP e André Cruz caminhavam juntos e imparáveis quando foram a Leiria.Aproveitando a proximidade da minha terra, lá seguiu a minha comitiva: eu, o meu Pai e o meu Irmão. O dia era de chuva, o jogo importante, e o nosso camisola 50 abre o marcador. Fácil! Ou pelo menos parecia: perto do fim, o nosso gigante dinamarquês deixa a bola escapar e coloca (pelo menos) um menino de 10 anos a chorar.

Sabemos que o bom do futebol é que a cada semana a esperança se renova e - caramba! -
íamos em primeiro e recebíamos o SL Benfica. O jogo começa: a bola é nossa, jogamos mais,
queremos mais e há uma falta do lado direito do ataque: “vai ser golo do André Cruz” digo
para mim, pois via o jogo sozinho. POSTE! Nessa noite de pesadelo, apenas me tiraram o
prazer de ser campeão nesse dia, pois já sabia que no Estádio Vidal Pinheiro a festa se
consumaria. Com direito a golos do nosso 50.

E decidi-me. A camisola do ano seguinte ia ter um número e um nome: 50 André Cruz. Veio
João Pinto, veio Paulo Bento, veio tanta gente – até o Hugo -, mas para mim estava feito. E
senti-me no direito de passar por cima do próprio André Cruz que – creio – mudou de número.
No jogo inaugural, com o SC Farense em casa, estádio cheio e eu feliz com o meu 50 que comprei
na antiga loja verde. Mas não era suficiente, a minha admiração pelo 50 crescia e mandei-lhe
uma mensagem para o seu site, qualquer coisa como: “és o meu jogador preferido do Sporting
etc, e gostava que me dedicasses um golo”. O Sporting CP estava na Liga dos Campeões com o Real Madrid CF, a história do jogo com o FC Porto repete-se e André Cruz fez o que melhor sabia, com uma diferença: na altura do festejo, correu para a câmara e apontou. Creio que tudo o que possa
escrever ficará aquém do que senti na altura com 11 anos, o meu ídolo a dedicar-me um golo
contra a melhor equipa do mundo!!! Ninguém teve coragem de me desmentir este facto, nem
o meu Pai, nem o meu Irmão.

 Cheguei à conclusão de que o golo era para qualquer outra pessoa mais tarde, mais adulto, mas com o mesmo amor ao Sporting CP. Mas c******, soube tão bem ter aquele golo dedicado a mim!

Texto redigido pelo leitor JVB.

Eis alguns momentos do Grande André Cruz de leão ao peito:

 

NDR: O Remember The Lions é a nova crónica do SVPN que pretende que os leitores falem sobre os seus jogadores de sempre do Sporting Clube de Portugal. Saiba aqui como pode participar.
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9 comentários:

  1. JVB , os meus parabéns por este magnífico texto , que mostrou todo o seu sentimento pelo jogador. O estilo de escrita na 1ª pessoa foi muito agradável , e de facto o Sporting teve na sua história excelentes centrais e André Cruz é dos mais inesquecíveis pela crença incrível que tínhamos quando ele ia bater um livre.

    O SVPN quer mais uma vez agradecer a sua participação.

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  2. Obrigado eu, e nós, leitores, por nos deixarem participar e nos convidarem a escrever sobre o nosso clube.

    Apenas notei uma gralha no meu texto - culpa minha. O real madrid é, obviamente, o 2º melhor clube do mundo, não o primeiro :)

    SL

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  3. Excelente a ideia de revivalismo, dou os parabéns a quem teve a ideia de criar estes artigos de opinião sobre os jogadores que fizeram parte da história do nosso clube. O André Cruz fez parte da equipa que acabou com o longo jejum, exímio marcador de livres, boa técnica e elegância tanto dentro como fora de campo. Parabéns pelo post jvb e sl

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  4. Bom post. Grande jogador este André Cruz. Este leão foi um dos que disse (mais tarde) que se tinha arrependido de ter saído do Sporting. Outro que já disse o mesmo foi o grande artista JVPinto (nós temos saudades deles, mas eles também têm saudades, especialmente, do Clube). Old Lion. SL

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  5. Obrigado LionLopes , a ideia é da administração do SVPN , e o que pretendemos é isto , que os leitores descrevam os seus jogadores de sempre do nosso grande clube , pois assim lembramo-nos que é muito mais o que nos une do que o que nos separa.

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  6. Grande idolo tambem da minha adolescencia. Tenho uma camisola dele mas infelizmente nunca foi assinada.Como jogava a central aquilo que comecei a fazer foi jogar com o pé esquerdo. Abraço

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  7. Com 10 anos os nossos olhos brilham de outra forma perante ídolos e "senhores" do futebol. E este texto retrata bem isso.

    Os meus olhos, com 10 anos, brilhavam com Luisinho, um senhor jogador e, também, defesa-central, internacional brasileiro que, tal como o grande André Cruz, teve uma passagem breve pelo Sporting. Embora não tão marcante (pois André foi bi-campeão, ganhou 1 Supertaça e 1 Taça de Portugal), Luisinho fez parte daquela caminhada rumo às meias-finais da UEFA, contribuindo com 1 golo decisivo em Bolonha, num empate 1-1 nos 4ºs final.

    André Cruz foi grande e está, sem dúvida, entre os melhores da nossa História. Fez com Babb a última grande dupla de centrais. A crença que voltaria a ser grande em Itália (mentira, pois acabou por voltar para o Brasil, o tal arrependimento que alguém mencionou em cima), e a forma como Boloni afastou Babb dos últimos jogos (consagração do Campeonato e final da Taça) para lançar Beto a central e Quiroga a def-direito (para que fossem ao Mundial na Coreia), fez com o irlandês recuasse no acordo de renovação, destruindo-se, dessa forma, a solidez defensiva que garantia pontos (e campeonatos).

    Não fui pesquisar, mas tinha ideia que André Cruz tinha vindo do Standard Liege, tal como Mpenza. Não sei ao certo.

    Continuação de bons textos.

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  8. Caro Cantinho do Morais,

    Nesse ano chegaram em Dezembro o Mpenza, o cesar prates e o André. Este último creio que era do Milan mas já andava a ser emprestado. Se não estou em erro veio do Torino...A 2a equipa campeã do SCP era, de facto, um espectáculo.

    SL

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  9. OFF-
    BdC já por várias vezes falou na reestruturação da formação,mas o que está a acontecer ao certo?Quais foram as medidas adotadas para além da rede de olheiros?
    Desculpem pelo off,mas é uma duvida que me assiste há algum tempo

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